O que o IMC diz, e o que ele não diz
O IMC divide o peso pelo quadrado da altura e devolve uma faixa de risco. Ele não sabe o que é músculo e o que é gordura, nem onde a gordura está. Este guia compara dois homens com o mesmo número, mostra o que a fita métrica acrescenta e traduz a meta que o Ministério da Saúde considera sucesso em calorias por dia.
Os dois homens do exemplo têm 40 anos, 178 cm e 92 kg, e fazem exercício de 1 a 3 dias por semana. Um tem 84 cm de cintura; o outro, 104 cm.
Os números saem das funções das calculadoras de IMC, peso ideal, percentual de gordura, taxa metabólica basal, calorias para emagrecer e macronutrientes. As faixas, os limites de cintura e as metas vêm da Linha de Cuidado da Obesidade no Adulto, do Ministério da Saúde. Nada aqui substitui a avaliação de um profissional de saúde.
A conta e a tabela
O IMC é o peso em quilos dividido pela altura em metros ao quadrado. Com 92 kg e 1,78 m, dá 29,04: sobrepeso, na tabela que o Ministério da Saúde adapta da Organização Mundial da Saúde.
A tabela, sozinha, não fecha diagnóstico. Ela associa cada faixa a um risco de comorbidades, as doenças que costumam acompanhar o excesso de peso, como as cardiovasculares e o diabetes tipo 2. É um indicador de triagem, e não um diagnóstico.
Para 178 cm, a faixa de peso adequado vai de 58,6 kg a 79,2 kg, e os 92 kg ficam 12,8 kg acima do máximo. É aqui que o número costuma virar sentença, e é aqui que ele precisa de companhia.
| Classificação | IMC (kg/m²) | Risco de comorbidades |
|---|---|---|
| Abaixo do peso | abaixo de 18,50 | Baixo |
| Eutrófico (peso adequado) | 18,50 a 24,99 | Médio |
| Sobrepeso | 25,00 a 29,99 | Pouco elevado |
| Obesidade grau I | 30,00 a 34,99 | Elevado |
| Obesidade grau II | 35,00 a 39,99 | Muito elevado |
| Obesidade grau III | 40,00 ou mais | Muitíssimo elevado |
Para pessoas com 60 anos ou mais, o Ministério considera normal o IMC entre 22 e 27, pelo risco de sarcopenia.
Dois corpos, o mesmo número
O Ministério da Saúde diz com todas as letras que o IMC não distingue massa gordurosa de massa magra. Ele pode ser menos preciso em pessoas mais velhas, que perdem massa magra, e superestimado em quem tem mais massa muscular. E não diz onde a gordura está.
O método das circunferências mostra a diferença com as medidas de pescoço e cintura. O homem com 84 cm de cintura tem gordura estimada de 12,4%, 11,4 kg de massa gorda e 80,6 kg de massa magra, classificado como atlético. O de 104 cm tem 28%, com 25,7 kg de gordura, classificado como acima do aceitável.
São 92 kg nos dois casos, e o IMC dá 29,04 para ambos. Para o primeiro, a palavra "sobrepeso" descreve músculo; para o segundo, descreve exatamente o que ela promete.
O método das circunferências também tem limite: o erro típico é de 3 a 4 pontos percentuais em relação a exames de referência, e pequenos erros de medida mudam bastante o resultado. Serve para acompanhar a tendência da mesma pessoa, medida do mesmo jeito, e não para comparar com a academia do vizinho.
| Medida | Cintura de 84 cm | Cintura de 104 cm |
|---|---|---|
| IMC | 29,04 | 29,04 |
| Gordura estimada | 12,4% | 28% |
| Massa gorda | 11,4 kg | 25,7 kg |
| Massa magra | 80,6 kg | 66,3 kg |
| Relação cintura-estatura | 0,47 | 0,58 |
A fita métrica diz o que a balança não diz
O Ministério da Saúde recomenda combinar o IMC com a distribuição de gordura, e chama essa combinação de provavelmente a melhor opção para a avaliação clínica. Os limites associados a risco maior são cintura acima de 80 cm para mulheres e acima de 94 cm para homens. Quanto maior a circunferência, maior o risco de doença cardiovascular, diabetes tipo 2 e mortalidade por todas as causas.
Há uma régua ainda mais simples, que a Linha de Cuidado apresenta como preditor melhor que o IMC do risco de mortalidade: a relação cintura-estatura, com corte em 0,5. A cintura deve ser menor que metade da altura. No exemplo, 0,47 de um lado e 0,58 do outro: o mesmo IMC, um abaixo do corte e outro acima.
A medida tem protocolo. Em pé, com o abdômen relaxado, a fita passa no ponto médio entre a última costela fixa e a parte mais alta do osso do quadril, paralela ao chão, sem apertar a pele e lida ao fim da expiração. Quando não dá para achar esses pontos, o Ministério aceita medir 2 cm acima do umbigo. Medir sempre no mesmo lugar importa mais do que acertar o milímetro.
A faixa de peso não é um alvo
A calculadora de peso ideal devolve a mesma faixa do IMC, de 58,6 kg a 79,2 kg para 178 cm, e compara com a fórmula de Devine, que dá 73,2 kg. Devine é uma fórmula clínica de 1974, criada para ajustar dose de medicamento: não foi feita para dizer quanto alguém deveria pesar.
Para o homem com 84 cm de cintura, a faixa não serve de alvo: só a massa magra dele, 80,6 kg, já passa do teto de 79,2 kg. Chegar lá exigiria perder músculo. Para o outro, a faixa está a 12,8 kg de distância, e a meta que o Ministério da Saúde propõe é outra, bem mais perto.
A idade também desloca a faixa. Aos 60 anos ou mais, o intervalo normal de 22 a 27 corresponde, na mesma altura, a um peso entre 69,7 kg e 85,5 kg, porque perder massa muscular na velhice é um risco próprio.
A meta que conta: 10% em um ano
O Ministério da Saúde define sucesso de outro jeito: manter, depois de um ano, uma perda igual ou superior a 10% do peso inicial. Para 92 kg, isso é chegar a 82,8 kg. Reduções menores, de 5% a 10%, já estão associadas a melhora de pressão, glicemia e triglicerídeos: 87,4 kg já seriam um bom começo.
Com 82,8 kg, o IMC cai para 26,13, e a classificação continua sendo sobrepeso. A própria Linha de Cuidado avisa que isso vai acontecer: a meta que melhora os fatores de risco nem sempre muda a faixa da tabela. Quem mede sucesso pela troca de faixa pode abandonar um tratamento que está dando certo.
Para chegar lá, a equação de Mifflin-St Jeor estima a taxa metabólica basal em 1.838 kcal por dia, e o gasto de manutenção, com o fator de atividade leve, em 2.527 kcal por dia. No ritmo de 0,50 kg por semana, o ajuste é de 550 kcal por dia, dentro da restrição de 500 a 1.000 kcal por dia que o Ministério indica. A meta fica em 1.977 kcal por dia, e o prazo estimado é de 19 semanas.
Acelerar tem limite. O ritmo de 0,75 kg por semana pediria uma meta abaixo da própria taxa metabólica basal, e a calculadora adota esse valor como piso. A meta para em 1.838 kcal por dia, o ajuste real é de 689 kcal por dia e o ritmo cai para 0,63 kg por semana, com prazo de 15 semanas. O Ministério admite restrição de até 1.000 kcal; o piso é uma escolha de prudência da calculadora, e dietas mais restritivas pedem acompanhamento profissional.
Todas essas contas usam a média de 7.700 kcal por quilo de tecido adiposo. Na prática, a perda envolve água e massa magra, e o corpo se adapta ao déficit. O Ministério aponta as expectativas irreais, perder muito em pouco tempo, como uma das dificuldades mais frequentes do tratamento.
O que vai no prato importa mais que a porcentagem
A calculadora de macronutrientes divide a meta calórica em gramas. Com 1.977 kcal por dia, a distribuição equilibrada e a rica em proteína ficam assim, lembrando que carboidrato e proteína têm 4 kcal por grama e gordura tem 9.
A Linha de Cuidado, porém, não fala em porcentagens. Ela pede que a redução de energia venha principalmente da qualidade da alimentação: mais alimentos in natura e minimamente processados, preparações culinárias no lugar de prontos, menos sal e açúcar, água no lugar de bebidas adoçadas e, acima de tudo, menos ultraprocessados. A base recomendada pelo Guia Alimentar é o arroz com feijão.
A outra metade é movimento: pelo menos 150 minutos de atividade física por semana, sem passar mais de dois dias parado, com exercício de fortalecimento muscular duas vezes por semana ou mais. Para o homem de cintura menor, é o que sustenta a massa magra; para o outro, é o que ajuda a manter o peso perdido depois do primeiro ano.
| Distribuição | Carboidratos | Proteínas | Gorduras |
|---|---|---|---|
| Equilibrada | 247 g (50%) | 99 g (20%) | 66 g (30%) |
| Rica em proteína | 198 g (40%) | 148 g (30%) | 66 g (30%) |
O que este guia não cobre
As tabelas e contas daqui valem para adultos: a classificação do IMC não se aplica a crianças, adolescentes e gestantes. Na gravidez, o Ministério não recomenda dieta de emagrecimento sem assistência profissional.
As equações de gasto energético têm margem de erro individual relevante, e metabolismo, medicamentos, sono e composição corporal mudam o resultado. Em pessoas idosas, a Linha de Cuidado trata a perda de peso involuntária como sinal de alerta: 5% em três meses já merece atenção.
Obesidade é doença crônica e multifatorial, com componente genético, e o tratamento envolve equipe. Este guia explica o que as calculadoras medem e onde elas param; o diagnóstico e o plano são de quem atende.
Calculadoras deste guia
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