Financiar imóvel: o que cabe na renda, SAC ou Price
Financiamento não começa no valor do imóvel: começa na parcela que a renda suporta. Este guia percorre uma compra do começo ao fim com os números das calculadoras do site, e mostra onde a escolha entre SAC e Price muda não só o custo, mas a aprovação.
A família do exemplo tem renda bruta de R$ 9.500,00 por mês, R$ 90.000,00 guardados para a entrada e R$ 45.000,00 na conta do FGTS. A proposta em análise tem taxa efetiva de 11,5% ao ano e prazo de 30 anos. Taxa, renda e entrada são ilustrativas; a ordem das contas é a que o banco usa.
Todos os valores saem das mesmas funções das calculadoras de capacidade de financiamento, de comparação entre SAC e Price e de consórcio. As regras vêm da Lei do FGTS, do Código de Defesa do Consumidor e da Lei do Consórcio.
A conta começa na parcela, e o teto de 30% não é lei
O banco não pergunta quanto custa o imóvel. Ele calcula quanta prestação a renda suporta, desconta o que já está comprometido com outras dívidas, e só então descobre que dívida essa prestação paga no prazo e na taxa da proposta. O valor do imóvel aparece no fim: é a dívida que cabe mais a entrada que você tem.
O limite de comprometimento é política de crédito, não regra legal. Trinta por cento da renda bruta é o número mais praticado, mas cada instituição calcula do seu jeito, algumas somam a renda de mais de uma pessoa e outras tratam as dívidas já existentes de forma diferente. Por isso o percentual é campo no formulário, e não constante.
Com renda de R$ 9.500,00 e 30% de comprometimento, o teto de prestação é R$ 2.850,00. Dentro dele, R$ 2.714,29 amortizam de fato: o resto são os seguros obrigatórios e a taxa de administração, que somam 5% sobre essa parte, vêm dentro da prestação e não abatem um centavo do saldo devedor.
Essa parcela paga R$ 286.494,69 de dívida em 30 anos, o que, somado à entrada, chega a um imóvel de R$ 376.494,69. E o dinheiro que precisa estar na conta na assinatura não é a entrada: são R$ 108.824,73, porque ITBI, escritura e registro somam perto de 5% do valor do imóvel e não entram no financiamento.
| Comprometimento | Teto de parcela | Dívida que cabe | Imóvel possível |
|---|---|---|---|
| 25% | R$ 2.375,00 | R$ 238.745,58 | R$ 328.745,58 |
| 30% | R$ 2.850,00 | R$ 286.494,69 | R$ 376.494,69 |
| 35% | R$ 3.325,00 | R$ 334.243,81 | R$ 424.243,81 |
Dez pontos percentuais de comprometimento, de 25% a 35%, separam R$ 95.498,23 de imóvel, e a mesma distância em risco no orçamento do mês.
SAC e Price: a diferença aparece antes dos juros
Nos dois sistemas a dívida é a mesma e a taxa é a mesma. O que muda é a ordem em que ela é paga. Na Price a prestação é fixa, e no começo quase tudo é juro; no SAC a amortização é constante, a prestação começa mais alta e cai todo mês, porque o saldo devedor diminui mais rápido.
No caso do exemplo, com R$ 286.494,69 financiados a 0,9112% ao mês pelos 30 anos, a Price cobra R$ 2.714,16 fixos e o SAC começa em R$ 3.406,36 para terminar em R$ 803,07. No fim, o SAC custa R$ 219.402,01 a menos.
Só que a primeira parcela do SAC, R$ 3.406,36, passa R$ 556,36 do teto de R$ 2.850,00 que a renda suporta. E é a primeira parcela que o banco usa para medir o comprometimento. Esse mesmo financiamento é aprovado na Price e reprovado no SAC: quem quer o sistema mais barato precisa de renda maior, de entrada maior ou de uma dívida menor.
É por isso que a Price aprova mais fácil quem está no limite, e por isso a escolha entre os dois raramente é livre. Quando é, o SAC ganha em juros com folga, e a vantagem cresce com o prazo.
| Prazo | Sistema | Primeira parcela | Total pago |
|---|---|---|---|
| 30 anos | SAC | R$ 3.406,36 | R$ 757.697,09 |
| 30 anos | Price | R$ 2.714,16 | R$ 977.099,10 |
| 20 anos | SAC | R$ 3.804,27 | R$ 601.064,71 |
| 20 anos | Price | R$ 2.944,39 | R$ 706.652,45 |
Na Price a primeira parcela é igual a todas as outras; no SAC ela é a mais alta do contrato, e cai a cada mês.
O prazo é preço
Alongar o prazo reduz a prestação e aumenta o total, porque o saldo devedor fica mais tempo exposto à taxa. No SAC do exemplo, sair de 20 para 30 anos derruba a primeira parcela de R$ 3.804,27 para R$ 3.406,36 e leva o total pago de R$ 601.064,71 para R$ 757.697,09.
São R$ 156.632,38 de diferença: mais que todo o dinheiro que a família precisa ter na conta na assinatura, R$ 108.824,73 entre entrada e custos de aquisição. É o número que falta na conversa quando o prazo é escolhido só pela prestação que cabe no mês.
Somando tudo no caso de 30 anos, o desembolso chega a R$ 1.116.000,00, dos quais R$ 739.505,31 são juros e encargos. Prestação que cabe e contrato barato não são a mesma coisa.
O FGTS entra em dois momentos, com regras diferentes
A Lei do FGTS permite usar o saldo no pagamento total ou parcial do preço de aquisição da moradia própria. São duas condições: o trabalhador precisa ter no mínimo três anos de trabalho sob o regime do fundo, na mesma empresa ou em empresas diferentes, e a operação precisa ser financiável nas condições vigentes para o Sistema Financeiro da Habitação.
O segundo uso é depois: liquidação ou amortização extraordinária do saldo devedor de financiamento imobiliário, nas condições do Conselho Curador do fundo, entre elas o financiamento estar no âmbito do SFH e um intervalo mínimo de dois anos entre uma movimentação e a seguinte.
No exemplo, os R$ 45.000,00 do fundo entram na compra como entrada. Repare no que acontece: o valor financiável continua R$ 286.494,69, porque a parcela que a renda suporta não mudou, e o imóvel possível sobe para R$ 421.494,69. O FGTS não amplia o crédito, amplia o imóvel.
E o dinheiro necessário na assinatura sobe junto, para R$ 156.074,73: como ITBI, escritura e registro são percentuais do preço, um imóvel mais caro custa mais para transferir. A parte do fundo, porém, é paga diretamente na operação, e não sai da conta corrente.
Amortizar antes: o desconto dos juros é direito
O Código de Defesa do Consumidor assegura ao consumidor a liquidação antecipada do débito, total ou parcial, com redução proporcional dos juros e demais acréscimos. O saldo para quitar não é a soma das prestações que faltam: é o valor presente delas, já sem os juros que não vão correr.
O mesmo artigo obriga o fornecedor a informar antes da contratação o montante dos juros de mora, a taxa efetiva anual, os acréscimos legalmente previstos, o número e a periodicidade das prestações e a soma total a pagar com e sem financiamento. É o que permite comparar propostas sem depender da taxa de vitrine.
Na amortização extraordinária existem dois caminhos, e eles não são equivalentes: abater o prazo economiza mais juros que abater a parcela, porque tira do contrato justamente os meses em que o saldo ainda é alto. Abater a parcela alivia o orçamento do mês e deixa o contrato inteiro de pé.
Nos dois sistemas o efeito é maior no começo. Na Price, porque é lá que quase toda a prestação é juro; no SAC, porque o saldo devedor ainda é o maior possível.
Consórcio e continuar alugando: as duas comparações honestas
O consórcio não tem juros, mas tem taxa de administração e fundo de reserva, e não entrega o bem na assinatura: a contemplação depende de sorteio ou de lance. A lei trata o crédito como o valor do bem indicado no contrato, vigente na data da assembleia de contemplação, e quem desiste vira consorciado excluído, concorrendo à restituição do que foi pago ao fundo comum, sem a taxa de administração.
Para o mesmo crédito de R$ 286.494,69, um grupo de 200 meses com 22% de taxa de administração e 2% de fundo de reserva dá parcela média de R$ 1.776,27 e custo total de R$ 355.253,42, dos quais R$ 68.758,73 são taxas.
A comparação precisa incluir o que o número não mostra. A parcela do consórcio é menor que a do financiamento, e o custo total é uma fração dos R$ 977.099,10 da Price. Só que, durante a espera, você continua pagando aluguel e o imóvel continua subindo de preço. É outra troca, não uma versão barata da mesma coisa.
Comprar também disputa com continuar alugando e investir a diferença. Essa conta depende de três premissas que ninguém conhece de antemão: valorização do imóvel, reajuste do aluguel e rentabilidade líquida do investimento. Mudando qualquer uma delas, o resultado vira.
O que este guia não cobre
Ficam de fora os programas habitacionais com subsídio, que têm regras próprias de renda máxima e de valor de imóvel, e a análise de crédito em si, que olha histórico, score e comprovação de renda antes de qualquer conta.
Também fica de fora a correção do saldo devedor. Em contratos corrigidos pela TR ou por índice de preços, a prestação muda ao longo do contrato, e uma simulação com taxa fixa subestima o custo de longo prazo.
Por fim, a taxa da proposta não é o custo. O que compara duas ofertas é o Custo Efetivo Total, que reúne juros, seguros obrigatórios, tarifas e a data da primeira parcela. Os seguros, aqui, entraram como um percentual sobre a parte que amortiza, e no contrato eles variam com a idade do comprador e com o valor do imóvel.
Calculadoras deste guia
Capacidade de financiamento
Descubra que valor de imóvel cabe na sua renda pelo limite de comprometimento dos bancos.
Calcular capacidadeSAC ou Price
Compare primeira parcela, última parcela, juros e total pago nos dois sistemas.
Comparar SAC e PriceFinanciamento Price
Estime a parcela fixa e acompanhe a composição de juros e amortização.
Calcular PriceFinanciamento SAC
Veja primeira e última parcelas, amortização constante, juros e total pago.
Calcular SACConsórcio
Estime custo total e parcela média a partir da carta, prazo e taxas do grupo.
Simular consórcioFinanciar ou alugar imóvel
Compare o patrimônio projetado ao financiar ou alugar e investir a diferença.
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